Santa Comba Dão

Há já algum tempo que sentia vontade de visitar a cidade de Santa Comba Dão. Mais concretamente desde que li o livro “Amor em tempos de guerra” de Júlio Magalhães. O livro, que é inspirado em factos verídicos, fala sobre a história de um rapaz do Vimieiro (aldeia do concelho de Santa Comba Dão), que se vê forçado a ir para a guerra do Ultramar. Relata a sua vida, as suas paixões e os seus encontros com António Oliveira Salazar.

Quem é Salazar?

Salazar foi um chefe de Estado português, principal responsável pelo Estado Novo e pela maior parte do regime ditatorial em Portugal, que se deu no período após a segunda guerra mundial.

Nasceu e cresceu no Vimieiro e estudou na universidade de Coimbra. Em 1932, o prestigioso ministro Salazar é nomeado Presidente do Conselho de Ministros pelo Presidente da República Óscar Carmona. É neste cargo que, após a aprovação da Constituição de 1933 por referendo, Salazar instaura o mais longo e estável regime ditatorial português de sempre – o Estado Novo.

O Estado Novo (1933-1974) foi um regime autoritário, conservador, nacionalista e corporativista de Estado de inspiração fascista, parcialmente católica e tradicionalista, de cariz antiliberal, antiparlamentarista, anticomunista, e colonialista, que vigorou em Portugal sob a Segunda República.

O regime criou a sua própria estrutura de Estado e um aparelho repressivo (a PIDE, as colónias penais para presos políticos como a de Peniche, Caxias e Tarrafal etc.), característico dos chamados Estados policiais, apoiando-se na censura, na propaganda, nas organizações paramilitares (Legião Portuguesa), nas organizações juvenis (Mocidade Portuguesa), no culto do líder e na Igreja Católica.

Como base da sua ideologia, o Estado Novo teve o princípio “Deus, Pátria e Família”. Aproxima-se da Igreja, defende de todas as maneiras a nação, a sua história e o seu património, assim como os valores tradicionais de família portuguesa.

Salazar morreu no dia 27 de julho de 1970, dois anos após uma invulgar resistência contra a “doença”. O funeral foi no dia 30, nos Jerónimos, o corpo seguiu depois de comboio para Santa Comba Dão, terra do ditador, onde ficou sepultado. Consta que lhe atiraram cravos vermelhos sobre a urna. Quatro anos após o seu falecimento, a 25 de Abril de 1974 o regime ditatorial cai.

Foi um dos dias mais importantes da história portuguesa, a famosa história dos capitães de Abril. Um ano após a queda do estado novo, realizaram-se as primeiras eleições que tiveram a maior adesão de sempre.

Para saber mais sobe o Estado novo e a revolução dos cravos (25 de Abril) visite os seguintes links:

A Cidade

Mas Santa Comba Dão não é só a história do Soldado António, nem de Salazar. É um concelho pertencente ao Distrito de Viseu. Lá passa o rio Dão, que desagua e se funde com o rio Mondego na barragem da Aguieira. É uma cidade muito bonita, muito florida, muito limpa, com casas senhoriais bastante imponentes e muitas casas de pedra. Aconselho a darem um passeio pela cidade para descobrir a sua arquitetura.

Lenda de Santa Comba Dão

Nas margens do Rio Om existiu um convento onde habitavam meia centena de jovens freiras, virgens consagradas ao Senhor.

Comba era o nome de uma madre abadessa que jovem se tornou mártir e santa: Santa Comba.

No tempo em que os Mouros conquistaram as terras dos Cristãos, avançando para norte, existiu um valoroso rei mouro, de nome Almançor. Após a tomada de Coimbra, o rei Almançor e as suas hostes acabaram por se aproximar do convento onde as freiras, já sabendo da terrível notícia, rezavam de forma a dominar o medo que as consumia.

A calma triste e sombria do interior do templo contrastava com o ruído da peleja e com o clima de morte que pairava no exterior.

Estando as irmãs absortas nas suas orações, bateram à porta com violência. A madre Comba recomendou-lhes calma, não as deixando sair do local do culto. Espreitando pelo postigo, apercebeu-se que as terríveis suspeitas se concretizavam: do outro lado da porta encontrava-se um jovem sarraceno.

Resolveu ganhar tempo alimentando uma conversa no decorrer da qual ficou a saber que o rei Almançor tinha ordenado ao jovem Aben Abdallah que tomasse para si e para os seus soldados as freiras do convento da margem do Rio Om.

Ao saber o que as esperava, a madre pediu que as matasse a todas, ao que o homem retorquiu não poder destruir o que lhes viria a servir. Impaciente, acabou por pôr a descoberto o rosto de Comba e, ficando admirado com a sua juventude e beleza, reservou-a para si. Zangado, ameaçou que se as conversas não terminassem por ali, entraria à força no convento.

A madre abadessa, percebendo que nada poderia fazer para poupar as monjas ao seu destino cruel, deixou passar o primeiro soldado de Aben Abdallah. Este ficou igualmente espantado com a beleza e juventude de muitas freiras e não demorou muito a demonstrar a sua preferência.

Comba chamou a freirinha, beijou-a na testa e a este sinal a jovem sacou do hábito um punhal que cravou no coração. Todas as monjas repetiram o gesto e tombaram inanimadas.

O guerreiro, aterrorizado e perplexo, fugiu chamando pelo seu chefe, que se precipitou no convento. À sua frente a sangrenta cena! Procurou desesperado pela sua preferida, mas Comba jazia nos braços das suas companheiras.

Quando Aben Abdallah contou o sucedido ao grande Almançor este não conteve a sua fúria e desdenhoso vociferou: “Porque não as mataram logo? Essas mulheres não sabem ser gente! “.

Mas os milagres do martírio da jovem bela abadessa permaneceram na memória do povo.

No local do convento surgiu uma povoação que, para se distinguir de Santa Comba do Alentejo e por se situar nas margens do Rio Om, se passou a chamar Comba D’Om. Com o decorrer do tempo o nome evoluiu para Santa Comba Dão.

Pode visitar o website da Câmara Municipal para mais informações sobre Santa Comba Dão.

A Visita

Visitamos Santa Comba Dão durante a manhã. De seguida, ao inicio da tarde, fomos até ao Vimieiro para visitar a casa onde nasceu e morou Salazar, assim como a sua campa no cemitério da aldeia. Em pesquisa na comunicação social, a câmara municipal de Santa Comba Dão aparenta ter intenção de aproveitar a casa de Salazar para fazer um museu onde serão exibidos os seus pertences, mas até a data nada feito. Só se pode ver a fachada da casa que já foi recuperada após a queda de parte do seu telhado.

A campa de Salazar no cemitério tem também um memorial, já vandalizado por diversas vezes, mas que se vai tentando preservar. Tive pena por não ter tido possibilidade de ver mais coisas relacionadas com Salazar. Espero que realmente venha a existir um espaço onde possamos ver e aprender mais sobre este período da nossa história.

 

Comidinha

Almoçamos no restaurante “Cota máxima”, que recomendo. O serviço é bom e os funcionários simpáticos. A comida é bastante boa, e dado possuírem um menu diário, o preço pode ser bastante acessível. Tem ainda uma vista bem gira para o rio Dão.

A paixão analógica

Por curiosidade, aproveitei para começar a usar a minha máquina analógica. Assim que terminar o filme em causa vou partilhar algumas das fotos no nosso Instagram e no Facebook. A máquina que estou a utilizar é uma Pentax Spotmatic e o filme Kodak 100 TMAX (B&W).

Aproveita para nos seguir nas redes sociais e ver como correu esta “nova” experiência.

Resta referir que adoramos a cidade e tudo à sua volta. É uma visita que vale a pena. 😊



3 Replies to “Santa Comba Dão”

  1. Acabei a ler esse livro por acaso, mas adorei! a História é muito real, sentimos que podia ser a nossa história, ou da nossa família! Recomendo muito a leitura!

  2. […] Caso tenha perdido o nosso post anterior, foi ainda no decorrer desta viagem que visitámos Santa Comba Dão. […]

  3. […] referido à algumas semanas no artigo de Santa Comba Dão, é nosso objetivo começar a fotografar mais em analógico, e esta vai ser a nossa estreia. Na […]

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